a minha amiga Fatinha

A minha amiga Fatinha tem uma curiosa forma de partilhar as suas máximas. Gerberas sobre a relva, disse-me ela certa vez, a seguir a um enorme silêncio. É claro que não fazia a mínima ideia de onde é que aquilo vinha, por isso lancei-me no que me parecia ser o discurso mais adequado, louvando as belas flores do povo farfalhudas e ao mesmo tempo singelas, laranjas claro, tinham de ser, porque gosto mesmo de gerberas laranjas. Fazem-me lembrar os dias singelos a seguir ao 25 de Abril, em que os passeios pelo campo voltaram a estar na moda até para quem odiava formigas e insectos e terra e folhas apodrecidas por todo o lado.
Não era nada disso, pelo menos para a Fatinha. Afinal, o que ela queria dizer e que depois me explicou com toda a clareza, era que as nossas amigas pareciam um ramo de gerberas sobre a relva. Era assim que ela as via. Frágeis e vistosas, um pouco perdidas no mundo. Não posso concordar com ela, mas é assim mesmo, também sou muito menos sensível do que ela às fragilidades humanas. E não acho que as mulheres ou as lésbicas sejam mais frágeis justamente por serem mulheres ou lésbicas. Gosto de pensar em mim como uma guerreira, até mesmo por estar consciente das minhas fragilidades. Mas a Fatinha, com certeza, estava a pensar nos momentos em que as gerberas estão sensíveis e frágeis e mais ou menos abandonadas sobre a relva.
publicado por yrleathergrl às 09:15